Escribofobia

Tenho um grande medo: escrever.

Deixar tudo registrado, anotado e com possibilidade de ser lido. É apavorante. Penso em um texto e logo começo a transpirar, minhas mãos tremem e me distraio fazendo outra coisa. Chego a demorar horas antes de colocar a primeira letra na tela branca.

Me sinto vulnerável, me expondo. O que quero é me esconder. Não é confortável se despir assim diante de desconhecidos. É bem verdade que estou sempre espiando outros autores. Quando termino um livro fico encantada com a coragem do autor e sempre tenho vontade de pergunta: te doeu?

Escrever me dói. Me ranca pedaços , abre feridas.

Quando criança sempre quis um diário, mas quando enfim ganhei um não escrevi uma palavra se quer. Tinha medo do que pudesse sair de mim e parar do papel. E se outra pessoa encontrasse os pedaços que joguei ali? Não parecia seguro.

Aprendi a escrever rápido e ainda assim sempre fui incapaz de colocar as palavras no papel. A escola era um alívio as vezes, podia escrever sem me ferir. Era só copiar e copiar. Reproduzir o que alguém já tinha feito e dito. Eu me sentia confortável naquela prisão.

Mas não adianta correr e me esconder. Em algum momento as palavras se acumulam dentro de mim e quase me sufocam. Quando começo a ter dificuldade pra respirar sei que preciso começar a anotar. E rabisco palavras que talvez em alguma ordem determinada faça sentido.

Quando anoto em papeis rapidamente rasgo em milhões de pedacinhos. Quando penso que alguém ainda poderia juntar os pedaços rasgo ainda mais. Já cheguei a acender uma fogueira pra ter certeza que nada daquilo iria se espalhar. Só depois me dei conta que o vento levava as cinzas por aí e me apavorei. Joguei água nas chamas e me escondi embaixo das cobertas por dias.

Consegui ficar um bom tempo sem escrever. Me dava pequenas punições toda vez que minhas mãos ameaçavam pegar uma caneta, um lápis ou escrever algo que não coubesse em 140 caracteres. Sem sobremesas, sem cerveja um final de semana, uma hora de Faustão.

Nesse tempo tive pesadelos em que eu contava histórias malucas e acordava assustada resistindo a tentação de anotá-las. Corria pra cozinha e ia esfregar os cantinhos das panelas que juntaram aquela crosta preta pra me concentrar em outra coisa e manter minhas mãos em outras tarefas. Em casos mais graves pegar uma escova de dente velha e passava entre os pisos do banheiros.

Perdi duas propostas de empregos porque exigiam que o currículo fosse acompanhado de uma carta de interesse. Além da multa que paguei injustamente quando não consegui recorrer, já que precisava ser por escrito. Um abuso. Quando o carteiro passava pela minha porta já me escondia, temendo que algo ali exigisse alguma resposta.

Só voltei quando percebi que já estava com dificuldade de assinar meu próprio nome. A letra torta, como de alguém que ainda não aprendeu a escrever ou que passou anos estudando medicina.

Foi minha devastação. Voltei a escrever. Assinava e escrevia as palavras para ver como saiam no papel. Então sem perceber já formava frases novamente. Um dia, talvez por culpa do excesso de bebida, abri um blog.

E voltei a me torturar. Agora não sei como parar….

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