Senhora

senhora
– Senhora é verdade que a idade está chegando? – Senhora! Senhora!

Era sexta-feira de noite. Dia oficial de baladas e eu estava na lotação votando pra casa. Com várias outras pessoas voltando pra casa. Sentadas, de pé, todas com cara de cansadas. Achei um espacinho no fundo, onde minhas pernas agradeceram.

Um ponto depois um grupo de adolescente entrou. Alguns com copos de bebidas, mas todos alegres e barulhentos. Fim do sossego, foi a primeira coisa que pensei. Eles riam de tudo, deles mesmos, de quem passava na rua, do mundo.

Lembrei de quando eu era jovem. Também andava em grupos, também era barulhenta nos ônibus, também ria de tudo. E pensando bem, nem fazia tanto tempo assim.

Me solidarizei com os jovens barulhentos. Deixei de me incomodar com o barulho, pensando que ontem mesmo era eu que estava naquele lugar. Morri de medo de estar ficando velha, daquelas que resmungam de tudo e começa a dizer “no meu tempo, se respeitavam….”. Eu não respeita espaço nenhum.

Até sorri com alguma piada inapropriada com os jovens fizeram e depois me preocupei que tivessem visto. As vezes me volta o sentimento da adolescência de inadequação e tudo o que quero é que ninguém repare em mim.

Quando foi a última vez que não voltei pra casa em uma sexta-feira. Que tinha animo pra estender pra balada, bares ou festas? Não fazia tanto tempo assim. Eu nunca me senti envelhecendo. É verdade que amarrar o cardaço exigia um esforço maior e eu já tinha me perguntado onde estava minha flexibilidade, mas isso era culpa do sedentarismo e não da velhice.

Bem, eu achava.

Quando levantei no meu ponto, os jovens que estavam tumultuando a porta perceberam e rapidamente se solidarizam:

– Ei, dá espaço pra senhora descer!

SENHORA! Velha é a senhora sua mãe! Pensei de imediato.

Mas no fim das contas, eu realmente tinha idade pra ser mãe deles. Eu realmente estava preocupada se eles tinham mesmo idade pra beber.

E que barulho infernal que faziam! Que horror! Esses jovens barulhentos que jogam nossa velhice na nossa cara. A partir de agora, me sinto no direito de começar a dizer “no meu tempo….”

 

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