Companhia

Eu tomo conta de uma gata.  Mas às vezes eu acho que ela é que toma conta de mim.

Quando de manhã acordo e percebo seus olhos azuis me encarando penso por quanto tempo ela esteve vigiando meu sono.  Me viro para o outro lado para continuar dormindo, ela puxa o cobertor, preocupada que eu acabe perdendo a hora.

Nossa convivência costuma ser tranquila, mas não chegamos a um acordo sobre quem é o dono de quem.  Disputamos a mesma poltrona.  É o lugar preferido de ambas, geralmente quem chega primeiro toma conta.  E nos dias frios, fingindo que não queremos dar o braço a torcer nos esprememos nela.  Ela reclama se eu me mexer muito.  Eu reclamo que ela não se move.

Ela também acha um absurdo a forma como eu me limpo.  É só eu entrar embaixo do chuveiro para ela aparecer e começar a miar.  Já tentou me mostrar a maneira certa, me dando pequenas lambidinhas na mão, mas não adianta.  Eu insisto no chuveiro todo dia.  E ela se revolta sempre.

O mesmo ocorre quando eu tomo chuva.  Ela parece não entender minha fixação por água.  Fica me rodeando e resmungando.  Geralmente basta que eu tente abraçá-la para que ela corra pra longe de mim.  Do mesmo modo eu resmungo quando estou deitada e percebo suas patas molhadas caminhando em cima da cama.  Ela não aprende a limpar em outro lugar.

Estamos muito acostumadas com o convívio. Quando ela fica fora de casa por muito tempo eu já fico preocupada e saio pra rua a procurar. Sei que quando viajo ela faz a mesma coisa. Ela não gosta que eu fique muitos dias fora, fica preocupada e começa a rondar o bairro a minha procura. Isso, claro, me preocupa.

Nós duas sabemos que estamos ficando velhas. Ao invés de brincar nos finais de semanas preferimos um cochilo pela tarde. De noite eu abro minha cerveja e ela espalha seu catnip pela sala.

Ela se ajustou ao meu horário (ou eu ao dela) e espera pacientemente sentada na porta quando eu estou chegando do trabalho, mesmo tendo a opção de sair pela janela prefere permanecer sentada. Não gostamos de ninguém mais por perto. Ela não é muito fã de outros animais e eu geralmente não quero companhia de outros humanos.

Com a idade avançando estão diminuindo a frequência dos presentes.  Mas é bem verdade que temos precisado cada vez menos deles para demonstrar afeto.  Às vezes ficamos somente nos olhando.  Quando eu vou fumar meu cigarro do lado de fora ela aproveita pra rolar no chão um pouco e ficar fuçando nas graminhas que insistem em crescer entre o concreto.  Cada uma com seu mato.

Quando não quero sair da cama ela me tira.  Começa a puxar o cobertor e me empurrar pra fora.  Em dias muito frios eu convenço ela a entrar debaixo do cobertor e enrolar mais cinco minutos.  Geralmente viram dez, quinze, vinte.

Não fazemos barulhos e nem mesmo conversamos muito. Quando tentamos ela mia e eu pronuncio palavras que ela não entende. Por isso decidimos que nos comunicamos melhor com o silêncio. Pelo menos ela não reclama das músicas que escolho.

Ela está ficando velha e talvez fique me olhando pensando que eu também estou. Mas eu não posso deixar de reparar que o tempo passa pra gente de forma diferentes. Ela tem sido mais devagar e eu passo a observar mais.  Sei que as coisas vão caminhar rápido a partir de agora e que ela ficará cada vez mais lenta.

Pensando bem, acho que até aqui foi ela quem cuidou de mim, mas está chegando a hora de retribuir.

Ilustração de Emma Simoncic
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