Pesadelo

 

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Trigger Warning: depressão, suicídio.

Tenho um sonho recorrente.

Estou no meio de pessoas conhecidas, sempre em lugares diferentes. Então há um movimento, todos começam a se deslocar rumo à outro lugar. Eu tento, mas não consigo. Minhas pernas não funcionam.  Faço um esforço pra levantar cada perna e tento um passo de cada vez, mas é como se pesassem uma tonelada. Olho ao redor procurando por algum tipo de ajuda, mas ninguém parece perceber minha dificuldade.

Insisto em tentar andar, quase arrastando minhas pernas em um esforço hercúleo. Sempre acordo antes de chegar a lugar algum.

Eu comecei a tomar medicação pra depressão. A terapia sozinha não estava funcionando. Mas o remédio me dava uma apatia insuportável. Pra resolver o problema da medicação recebi uma nova medicação, que deveria diminuir os efeitos colaterais da primeira. Sim, um medicamento pra resolver os efeitos de outro medicamento. Coisas da psiquiatria.

A médica introduziu uma dose inicial de teste e tudo parecia melhorar, mas sem grandes mudanças. Ela achou que seria valido tentar um aumento da dose antes de partir pra outra marca ou tipo de medicação. Como não tinha tido nenhuma reação anormal marcamos o retorno para dois meses.

Um problema das medicações para problemas mentais é que se comportam de maneira diferente em cada organismo. Acaba sendo uma loteria encontrar o seu remédio adequado. Nesse caso, no começo pareceu funcionar. Finalmente eu parecia estar “voltando a sentir”. Podia não ser felicidade, mas qualquer coisa parecia melhor do que não sentir nada.

Até chegar uma nova crise.

Mais intensa do que foram outas.  Tudo era dolorido e cruel. A única diferença era que eu não estava sem a total falta de energia que a depressão costuma me causar. Eu me sentia ativa, lúdica e totalmente racional, sendo assim, tinha certeza de que o mundo era realmente um lugar horrível.

Garanti que o remédio não tinha grandes problemas ao ser misturado ao álcool e passei a beber com mais frequência. A ansiedade aumentou e voltei a me cortar. Cada dia eu tentava um pouco mais e mais fundo. Era uma especie de teste. Queria saber até onde eu conseguia ir.

Um dia me lembrei que tinha recebido medicação pra dois meses. Além disso, uma funcionária da farmácia acabou me dando uma caixa a mais do que pedia a receita. Vários comprimidos.

Foi no feriado. Com todos em casa viajando que abasteci minha geladeira de cervejas. Um copo e um comprimido foi o que aconteceu durante a noite.

Por algum motivo comecei a mandar mensagens pra uma amiga dizendo que eu iria tomar os remédios. A verdade é que eu já havia tomado uma boa quantidade. O resto da noite virou uma grande alucinação. Sentia meu coração tão acelerado como se fosse saltar do peito. Andava pela casa procurando o barulho de um celular inexistente e não conseguia controlar meus pensamentos. As paredes se moviam e nada mais parecia sólido. Deitei no corredor, pois a cama parecia longe demais. Surgiu um apito na minha cabeça.

Ainda assim continuava engolindo o quanto podia. Os minutos não passavam. Durava uma eternidade tudo naquela noite. Eu comecei a desejar muito conseguir desligar, apagar. Há no meio disso um breve momento de medo extremo. Quando eu comecei a pensar que mais uma pilula seria fatal. Temi a morte e então não consegui mais engolir nada.

Minha cabeça apitava. O sono não vinha. Olhava os minutos e nada mudava. As paredes rodavam. Fechando os olhos sentia meu coração bater com força no meu peito. Ouvia o barulho dele. Era insuportável. Abria os olhos e tudo me dava enjoo. Nem um minuto sequer passou. Tudo se movia. O tempo parado.

Em algum momento apaguei.

Acordei com o estomago embrulhado. Precisava vomitar e como estava no corredor, era só caminhar até o banheiro… mas a havia um problema: eu não conseguia mover minhas pernas.

Eu tinha perdido o controle de parte de mim. Precisei ir me arrastando até vaso. Acabei ficando por lá mesmo, já que o resto do dia meu corpo pretendia eliminar tudo o que tinha dentro de mim. Tive dores de barriga também, mas nem mesmo sabia se conseguiria usar o banheiro, já que me sentia com dificuldade de coordenar minhas funções físicas.

Eu não podia levantar, tentei duas vezes, mas as paredes ainda se moviam.  Percebi o pote vazio da minha gata e que eu precisaria descer as escadas se quisesse alimentá-la. Tentei, mas não consegui. Me senti ainda mais culpada e triste.

Recebi mensagens preocupadas da amiga que mandei os sms de madrugada. Tentei dizer que estava tudo bem, mas na verdade eu estava desesperada e não conseguia admitir. Ela insistia para que eu chamasse alguém, mas eu não queria ninguém por perto. Continuei dizendo que estava bem. Minha grande vitória desse dia foi descer as escadas, sentando de degrau em degrau, sem me levantar. Assim também subi de volta.

Tive medo de pensar em ter que ir para o hospital. Passei quase o dia inteiro próxima do vaso do banheiro. Não conseguia engolir nem mesmo água. Não pensei muito sobre ter fracassado. Acho que estava com medo demais pra pensar nisso. E o apito na minha cabeça continuava lá.

No dia seguinte abandonei por conta a medicação (em parte porque não tinha mais). Avisei amigos próximos sobre o que tinha acontecido. Durante um bom tempo perdi bastante da minha privacidade em casa, pois me sentia constantemente vigiada. Ainda penso na ingenuidade e sinto vergonha de tudo o que passou.

Até hoje tem vezes que o maldito apito surge em minha cabeça. E quando desço as escadas me lembro do meu sonho. Não sei mais qual foi real. Agora quando as coisas parecem ruins, eu tento me levantar pra garantir que consigo dar ainda mais um passo. E fico menos assustada.

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