Solomon, depressão e controle

Queria escrever sobre “O Demônio do Meio Dia“. O livro é uma enciclopédia sobre depressão escrita por Andrew Solomon e publicada no ano de 2000. E ainda que algumas coisas tenham avançado ainda pode ser considerado uma referência sobre o tema.

O relato tem como base a própria depressão do autor e de vários personagens ao redor do mundo. Solomon faz relação com muitos temas que envolvem a doença: vícios, morte, remédios, tratamento, cultura, etc. Em alguns pontos ele interpretada os dados de maneira bastante pessoal – o que torna a leitura mais agradável e que me fez discordar de alguns pontos.

Um dos capítulos que mais me surpreendeu foi o que tratava sobre o suicídio.

Em primeiro lugar Soloman diferencia o suicídio da depressão: “a tendência ao suicídio tem sido tratada como um sintoma de depressão quando na verdade pode ser um problema que coexiste com a depressão”, ou seja, segundo ele nem todos suicídios são cometidos por pessoas depressivas e nem todas pessoas depressivas vão cometer suicídio. Ele defende uma diagnose própria para cada um desses dois problemas.

Sua opinião é construída pelo fato de que para alguém se matar é preciso uma ação, uma quantidade de energia e vontade, o que no geral depressivos não possuem. “Há sutis mas importantes diferenças entre querer estar morto, querer morrer e querer se matar. A maioria das pessoas, de tempos em tempos, tem o desejo de estar morto, anulado, além da dor. Na depressão, muitos querem morrer, fazer uma passagem concreta do estado em que se encontram para se libertarem das aflições da consciência. Querer se matar, contudo, requer todo um nível extra de paixão e uma certa violência dirigida”.

Pensar em morte não é incomum. E é justamente ela que delimita o que é vida, nos impondo limites e nos forçando a conhecer melhor nossa relação com o mundo. A resposta para o que pode haver depois varia de pessoa pra pessoa, claro. Mas quando se pensa na morte se pensa também na vida, em sua finitude e significado.

Isso explica também porque é tão difícil encontrar casos em outras espécies. Animais não entendem sua própria mortalidade e por isso não cometem suicídio (no máximo podem ferir-se quando criados em situações opressivas extremas).

A primeira vez que pesquisei o tema na internet fiquei horas lendo ~motivos~ e cartas deixadas por pessoas que tentaram dar alguma explicação ao ato. O fato é que não existe nunca um motivo satisfatório pra quem fica. E quando se chega ao ápice da tristeza a crença de que as pessoas estarão melhores sem todo o fardo da pessoa deprimida possibilita que muito pouco possa ser feito. Reafirmar o amor não é mais suficiente. A dor carregada que se carrega tende a ser tão grande que toma toda a existência. A ideia de morte pode parecer a única forma de se livrar de tudo. Se livrando do local onde a dor se hospeda, se encerra. Destruir o corpo, destruir a morada a dor.

No livro Solomon diz que é necessário algum espaço para que esse sentimento cresça. Pessoas que vivem em situações extremas de violência (como guerras e campos de concentração) não tendem a se matar, porque estão focadas em sobreviver. Mas o número de pessoas que voltam de guerra e depois de um tempo se matam é altíssimo.

Mas da mesma forma que pensar na morte e divulgar informações sobre aumenta o risco de suicídio também pode ajudar a diminuir o número de ocorrências. É quase um paradoxo. Mas tentando ajudar cito Nietzche: a ideia do suicídio mantém muitos homens vivos na parte mais sombria da noite.

Daí entra a possibilidade de controle. Conhecendo o tema. Solomon resume que quanto mais alguém se concilia com a ideia do “suicídio racional”, mais protegido estará do suicídio irracional. É o famoso “ah, hoje não”.

Em suas palavras:

“Saber que se eu atravessar esse minuto sempre poderei me matar no próximo torna possível atravessar este minuto sem ser totalmente esmagado por ele. O suicídio pode ser um sintoma da depressão; é também um fator que a suaviza. A ideia do suicídio torna possível atravessar a depressão […] nada me aterroriza mais do que a ideia de que eu poderia, em algum estágio, perder a capacidade de cometer suicídio”.

Saber que há novas chances ajuda. E com o tratamento o sofrimento pode ser aliviado e o suicídio deixar de ser uma obsessão. Se estiver passando por algo relacionado procure ajuda médica.

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